Como tem passado por aí? Essa é uma edição especial, feita na segunda. Eu tô aqui me arrumando pra ir pro treino, já é o #118 do ano, e antes de sair queria te mandar essa aqui.
Hoje eu quero que tu tome um Chemex comigo. Se você não conhece, Chemex é um método de café filtrado que passa devagar. Filtro mais grosso que o coador normal, café mais limpo, sem aquele amargor que gruda na boca. Demora mais pra ficar pronto. Mas o resultado é outro. É o tipo de café que você não toma com pressa. Passa, espera e aproveita.
Pega o teu do jeito que for e vem comigo. Queria bater esse papo contigo.
Semana passada eu tava numa conversa com um cliente e em algum momento a conversa saiu do técnico. Ele me perguntou: Dante, tu usa IA todo dia. O que é que tu faz de diferente? Porque eu uso também e o resultado nunca sai do jeito que eu quero.
E eu respondi sem pensar: eu faço perguntas.
Ele ficou me olhando esperando o resto. Tipo, tá, e aí? Qual o framework? Qual o prompt? Qual a técnica secreta?
Não tem. É pergunta.
E ele fez uma cara de quem acabou de ouvir que o segredo da dieta é comer menos. Aquela frustração de quem queria uma resposta complexa e recebeu a mais simples possível.
Mas aí eu fui explicando. E quanto mais eu explicava, mais eu percebia que esse assunto merecia uma edição inteira. Porque por trás dessa resposta simples tem uma coisa que eu acho que quase ninguém tá prestando atenção.
Quando você era criança, você perguntava tudo. Por que o céu é azul? Por que a água é molhada? Por que eu tenho que dormir? Por que, por que, por que. Sua mãe já não aguentava mais. Você não tinha vergonha de não saber. Não tinha medo de parecer burro. Queria entender. E a ferramenta que usava era a pergunta.
Aí você cresceu. E em algum momento perguntar virou sinal de fraqueza. Na escola o cara que pergunta demais é o que não estudou. No trabalho é o que não tá acompanhando. Na reunião é o que tá atrasando todo mundo. E a gente foi desaprendendo. Foi engolindo a dúvida e fingindo que entendeu.
Agora chega a IA. E de repente a habilidade mais importante que você pode ter é justamente essa que você passou 20, 30 anos desaprendendo.
Vou te dar um exemplo do meu dia a dia pra isso ficar concreto.
Eu abro o Claude e pergunto: "qual a melhor plataforma de e-commerce pra esse cliente?" Ele me devolve uma resposta. Lista três plataformas, fala bem de todas, compara umas features genéricas. Resposta redonda. Serve pra qualquer pessoa do mundo que fizesse a mesma pergunta. E justamente por servir pra qualquer pessoa, não serve pra ninguém.
Agora olha o que acontece quando eu mudo a pergunta.
"Meu cliente é uma siderúrgica com 19 mil clientes ativos, B2B, ticket alto. O time comercial tem 8 pessoas e eles têm certeza que e-commerce vai tirar venda deles. Ele precisa de venda assistida onde o vendedor faz pedido pelo canal digital e mantém a comissão. Tem cálculo tributário que muda por CNPJ e precisa integrar com um ERP de 15 anos que ninguém quer trocar. Qual plataforma aguenta isso e por quê?"
Mesma IA. Mesma dúvida. Resultado completamente diferente.
No primeiro caso a IA me deu uma resposta de blog. No segundo ela me deu uma análise que eu consigo usar numa reunião com o cliente amanhã de manhã. A diferença não foi a ferramenta. Foi a pergunta.
E isso vai muito além de prompt engineering. Eu sei que esse termo tá na moda. Tem curso, tem certificação, tem gente se apresentando como "prompt engineer" no LinkedIn. E tudo bem, tem valor em aprender a estruturar instrução pra IA.
Mas o que eu tô dizendo é mais simples. E mais profundo.
A qualidade da resposta que a IA te dá é um espelho direto da qualidade da pergunta que você faz. Não do formato da pergunta. Da qualidade. Pergunta rasa, resposta rasa. Pergunta com contexto, com restrição, com um exemplo concreto do que você quer e do que não quer, a resposta vem num nível que você não sabia que a mesma ferramenta era capaz de entregar.
E sabe o que eu percebo trabalhando com isso todo dia? Quem usa IA bem geralmente é gente que já fazia boas perguntas antes da IA existir.
O gestor que sentava na reunião e perguntava "por que a gente faz desse jeito?" em vez de aceitar o processo como sempre foi. O desenvolvedor que perguntava "o que acontece se entrar 5 mil pedidos ao mesmo tempo?" antes de subir o sistema. O dono de negócio que perguntava "quanto custa cada pedido de verdade, com frete, com devolução, com tudo?" em vez de olhar só pro faturamento bruto.
Essa gente não precisou de prompt milagroso nenhum. Já sabia perguntar. A IA só amplificou uma habilidade que já tava lá.
Agora, na prática, o que eu faço pra melhorar a qualidade do que a IA me devolve. Sem framework. Sem template. Só o que funciona pra mim depois de meses usando isso todo dia.
Contexto. Quanto mais eu dou, melhor a IA responde. Eu não pergunto "qual a melhor plataforma?" Eu digo qual o cliente, qual o setor, qual o tamanho da operação, qual a dor principal, qual a restrição técnica. A IA precisa saber onde você tá pra te responder de verdade. Se você não conta, ela chuta. E chuta bonito. Tão bonito que você acredita.
Restrição. Eu digo o que não quero. "Não me dá resposta genérica. Não compara feature por feature. Me diz qual plataforma aguenta essa operação específica e por quê." Quando você fecha as portas erradas, a IA encontra a certa mais rápido. A maioria das pessoas só diz o que quer. Dizer o que não quer muda tudo.
Referência. Eu mostro um pedaço do que eu espero. "Na última vez que eu avaliei plataforma pra um cliente parecido, os critérios que pesaram foram esses. Usa essa lógica." A IA calibra muito melhor quando tem algo pra se espelhar. É tipo contratar um arquiteto e mandar foto da casa que você gosta. Sem referência, ele vai chutar. Com referência, ele entende.
Iteração. A primeira resposta quase nunca é a que eu uso. Eu leio, pego o que funciona, descarto o que não funciona e pergunto de novo. "Por que você indicou essa e não aquela? Quais os riscos dessa escolha? E se o ERP do cliente não suportar, qual o plano B?" Vai e volta. Três, quatro, cinco vezes. Cada pergunta nova refina o resultado. Quem aceita a primeira resposta tá usando a ferramenta pela metade.
E o quinto, que talvez seja o mais importante de todos: saber o que perguntar. E isso não vem de curso. Vem de repertório. De entender o problema antes de querer a solução. Se eu não sei como uma operação de e-commerce funciona por dentro, eu não vou saber o que perguntar pra montar a arquitetura dela. Posso ter o melhor prompt do mundo. A IA vai me devolver algo que parece certo. Mas eu não vou ter como saber se tá certo ou errado. E aí volta aquilo que eu repito toda edição: confie, mas verifique.
Todo mundo tem acesso às mesmas ferramentas. O Claude que eu uso é o mesmo que você usa. O GPT que eu abro é o mesmo que você abre. Todo mundo pode gerar texto, analisar dado, montar análise, criar código. Se as respostas estão niveladas, o que separa quem tira resultado de quem não tira?
A pergunta.
E a boa notícia é que você já soube fazer isso. Quando tinha 3 anos, você era a pessoa mais curiosa da sua casa. Fazia pergunta atrás de pergunta. Não parava até entender.
A IA tá pedindo de volta exatamente essa versão sua. Aquela que perguntava sem medo, que queria entender de verdade, que não aceitava a primeira resposta.
Apaga o prompt de 47 passos. Abre uma conversa. E pergunta como se tivesse 3 anos de novo. Só que agora com o repertório que você construiu em 20, 30, 40 anos de vida.
É aí que a coisa fica interessante.
Boa semana.
Dante Araújo

